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8 de nov. de 2015

Opções de um signo para outro

Na busca por informações teóricas que auxiliem no aprimoramento de teorias e práticas relacionadas à tradução, que sirvam de base comprobatória, de todos os aspectos envolvidos na opção de escolher entre determinada palavra e/ou expressão, em detrimento de outra, cheguei ao artigo de Amanda Scherer e Carla Kader - Os aspectos linguísticos da tradução à luz dos pressupostos teóricos de Roman Jakobson versus a vertente da tradução da linguística de corpus, do qual extraí alguns trechos, pois, de certa forma, eles resumem o processo que ocorre, quando o tradutor se debruça sobre o texto que vai traduzir, pois [ ... ] "a tradução ainda hoje apresenta desafios: às vezes se mostra infiel ao texto original e desafia [os] tradutores a buscarem conhecimentos não só sobre a língua meta, saussurianamente falando, mas sobre os aspectos simbólicos e representacionais da língua".
[...]
"Para  Jakobson "pura e simplesmente qualquer signo pode ser traduzido num outro signo".   [ ... ] "Na concepção do autor, toda experiência cognitiva pode ser traduzida e classificada em qualquer língua existente. Onde houver dificuldades tradutórias, a terminologia poderá fazer empréstimos, calcos, neologismos, transferências semânticas ou circunlóquios. E acrescenta que, mesmo na ausência de determinados processos gramaticais, na linguagem para a qual se traduz, há a possibilidade de tradução literal da totalidade da informação conceitual contida no original".
[ ... ]

[Nas] "palavras de Jakobson: [ ... ] "para o linguista como para o usuário comum das palavras, o significado de um signo linguístico não é mais que sua tradução por um outro signo".
[ ... ]
"Tradicionalmente, a identificação da rede de equivalentes na tradução teria de apoiar-se na intuição e na experiência prévia do tradutor. [ ... ] A faculdade de falar determinada língua implica na faculdade de falar acerca dela, ou seja, a operação metalinguística permite ao tradutor revisar e redefinir o vocabulário empregado", não se trata mera e simplesmente de optar por esta ou aquela palavra e/ou expressão ao bel prazer de sua vontade própria, no momento em que realiza seu trabalho de tradução, mas de obedecer as regras linguísticas que permeiam em cada uma das línguas, sempre em busca de transferir o sentido apresentado pelo original da forma mais adequada, fluente e natural possível. 


SCHERER, Amanda Eloina; KADER, Carla Callegaro Corrêa. Os aspectos linguísticos da tradução á luz dos pressupostos teóricos de Roman Jakobson versus a vertente da tradução da linguística de corpus. Londrina: Entretextos, v. 12, n. 1, p. 132 - 148, jan. / jun. 2012. Disponível em:  http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/entretextos/article/viewFile/8952/11600. Pesquisado em novembro de 2015.

12 de out. de 2015

Mentes bilíngues X Corpos bilíngues

Recently, this research has expanded to another aspect of embodiment, the degree to which our sensorimotor systems are engaged in mental simulation of physical actions when we speak, read or write. Researchers found that the processes of language production and comprehension (lexico-semantic processing) make use of the same parts of the brain that are dedicated to interacting with the world (affective and motor processing). The verbs ‘running’, ‘grabbing’ or ‘throwing’, for instance, may activate the same part of the brain as direct physical actions they refer to.
These findings inspired Francesco Foroni, researcher at the International School for Advanced Studies (SISSA) in Trieste, to examine how bilinguals engage the relevant facial muscles in the process of mental simulation. He presented twenty-six participants, all of them Dutch-speaking university students who learned English after the age of 12, with sentences such as ‘I am smiling’ or ‘I am frowning’, in L1 Dutch and L2 English, and measured activation of their facial muscles. The findings revealed that when participants read the sentence ‘I am smiling’ in L1 Dutch, the smiling muscles contracted and when they read the sentence ‘I am frowning’ the muscles relaxed. When they read the ‘smiling’ sentence in L2 English the smiling muscles also contracted but to a lesser degree. However, there was no relaxation in reaction to ‘frowning’ sentences. These findings led Francesco Foroni to conclude that the embodied simulation in the L2 may be only partial in comparison to the L1. The reasons for this discrepancy may lie in differences between language learning ‘in the wild’ where words are linked directly to motor codes and language learning in the classroom where words are linked to other words.

References:
Foroni, F. (2015). Do we embody second language? Evidence for ‘partial’ simulation during processing of a second language. Brain and Cognition, 99, pp. 8-16.
Lorette, P. & J.-M. Dewaele (2015). Emotion recognition ability in English among L1 and LX users of English. International Journal of Language and Culture, 2, 1, 62-86.
Pavlenko, A. (2006) Bilingual selves. In Pavlenko, A. (ed.) Bilingual minds: Emotional experience, expression, and representation. Clevedon, UK: Multilingual Matters, pp. 1-33.
Aneta Pavlenko's website(link is external).

26 de mar. de 2015

Poética, Ritmo, Signo

O artigo de Alice Maria Araújo Ferreira: NOÇÕES FUNDAMENTAIS PARA SE PENSAR A POÉTICA DO TRADUZIR DE MESCHONNIC, publicado na revista: Traduzires, maio de 2012 (Leia mais), cujo trecho publiquei a seguir, aborda todos os aspectos semióticos e dogmáticos que implicam na atividade de tradução do mundo poético, a saber:

Poética

A necessidade de se trabalhar em uma poética impede a separação dos estudos linguísticos dos estudos literários, pois, como diz Meschonnic, “poética implica literatura” (1999, p. 3). A poética só se desenvolve no conjunto da teoria, da literatura e da linguagem. Em tradução, a poética é experimental: primeiro, porque a tradução é uma atividade; segundo, porque é uma crítica, enquanto “reconhecimento das estratégias e de estratégia contra a manutenção da ordem constituída pelos dogmatismos fenomenológicos e semióticos” (1999, p. 3). 

O segundo motivo é que a poética distingue os problemas filológicos (saber da língua) dos problemas propriamente poéticos, estudo do texto, e permite situar a tradução em uma teoria do sujeito e do social. A poética não é propriamente o estudo das obras literárias, mas o estudo do valor de uma obra. A poética é uma política do ritmo, e a política do ritmo, uma política do sujeito. A tradução é, para Meschonnic, a “melhor testemunha da implicação recíproca entre a historicidade e a especificidade das formas da linguagem como formas de vida. Com sua ética e sua política” (1999, p. 4). Quando fala em política da tradução, não se trata de política editorial, mesma se esta também tenha que ser pensada, mas da relação identidade e alteridade, sem opô-las, ao contrário, reconhecendo a interação entre elas, já que só temos identidade se há alteridade. 

A poética recusa o cientificismo, não é, de modo algum, uma ciência, nem mesmo uma ciência experimental. A poética é uma teoria crítica, uma teoria de conjunto da linguagem, da história, do sujeito e da sociedade porque o discurso se pensa a partir de todas essas dimensões. Meschonnic concebe teoria e crítica como indissociáveis e situadas no plano histórico e ideológico. A crítica é o próprio exercício do pensamento, se dá no e pelo sujeito, o que vai contra a transcendência do observador, que, à procura da verdade, acaba se excluindo do processo de objetivação que ele mesmo iniciou. O sujeito da teoria crítica é uma instância de avaliação, já que ela se define, ao mesmo tempo, como busca das historicidades, dos funcionamentos, dos interesses e dos desafios de um lado, e ela constrói e situa seus próprios valores. Não se trata de uma busca da verdade, mas do sentido. Não é saber o que é o sentido, mas como, a partir de que e para onde se faz o sentido. 

Meschonnic elabora sua poética do traduzir em torno de um programa teórico baseado no ritmo como organização da historicidade do texto. 

Ritmo 

Noção que já recebeu diferentes definições ao longo do tempo. Na antiguidade, Platão definia o ritmo como a ordem do movimento e distinguia ritmo de harmonia. A organização desse movimento era operada formalmente com alternâncias entre a percepção auditiva e/ou visual, ou seja, pela alternância dinâmica dos impulsos e das pausas. No sséculo XVIII, Diderot acrescenta à definição formal da antiguidade, um aspecto sensível: 

Você me pergunta, o que é o ritmo? É uma escolha particular de expressões, é uma certa distribuição de sílabas longas ou breves, duras ou suaves, surdas ou sonoras, leves ou pesadas, lentas ou rápidas, de lamento ou alegres, ou um encadeamento de pequenas onomatopeias análogas às ideias que temos e que nos preocupam, às sensações que sentimos e que queremos excitar, aos fenômenos que procuramos revelar, os acidentes, às paixões que vivemos e os gritos do animal que elas arrancariam, à natureza, ao caráter, ao movimento das ações que nos propomos revelar; e esta arte não é feita de convenções tanto quanto a luz e as cores do arco-íris; não se aprende, não se comunica, apenas pode se aperfeiçoar. Inspira-se de um gosto natural, da mobilidade da alma, da sensibilidade. É a própria imagem da alma (DIDEROT, Salon de 1767, apud BORDAS, 2003, p. 8, trad. nossa). 

Definição que completa a concepção formal da Antiguidade e do Classicismo, com certa irracionalidade, eliminando sua compreensão analítica. Ele já anuncia que é o ritmo que organiza o sentido como manifestação do sentir da alma. Para Benveniste (1994), o ritmo é um objeto evidente na poesia e na música e se percebe como uma “alternância de marcas (tempo forte, tempo fraco) do mesmo e do diferente, de vazio e de cheio, de longas e de breves, como um recorte, por intervalos, do som sobre fundo silencioso” (BENVENISTE, 1994, p. 335). Essa concepção recortada pode levar a esquecer que o ritmo é fundamentalmente um movimento, esquecimento provocado pela métrica que alimenta uma noção falsa de unidades (verso, frase ou estrofes). 

Avançando nos estudo de Benveniste, Meschonnic (1982, p. 69-70) nos ensina a pensar o ritmo como uma estrutura, um nível que é a própria organização do sentido no discurso: 

A partir de Benveniste, o ritmo pode não ser mais uma subcategoria da forma. É uma organização (disposição, configuração) de um conjunto. Se o ritmo está na linguagem, em um discurso, ele é uma organização (disposição, configuração) do discurso. E como o discurso não é separável do seu sentido, o ritmo é inseparável do sentido desse discurso. O ritmo é a organização do sentido no discurso (MESCHONNIC, 1982, p. 70, trad. nossa). 

O ritmo descobre o sentido do enunciado para deixar o sujeito aparecer. Assim, para Meschonnic, o ritmo é uma organização da fala na linguagem por um sujeito, e de um sujeito por sua linguagem. Em Critique du rythme: anthropologie historique du langage, Meschonnic apresenta o ritmo “como a organização do movimento na palavra, a organização de um discurso por um sujeito e de um sujeito por seu discurso” (1982, p. 61-62). O ritmo é assim visto como uma organização da subjetividade e da especificidade de um discurso e não é separável do sentido, já que ele o organiza. A organização das marcas pelas quais os significantes linguísticos e extralinguísticos produzem uma semântica específica, distinta do sentido lexical. Estas marcas situam-se em todos os níveis: acentos, prosódicos, lexicais, sintáticos. Elas constituem junto um paradigma e um sintagma e neutralizam a noção de nível. O ritmo está no verso e na prosa. Ele está nos acentos, nos fonemas, na entonação, nas intensidades, nas construções de frases... 

Meschonnic combate todo e qualquer dualismo em tradução: língua de partida/língua de chegada; significante/significado; forma/conteúdo; letra/espírito;... Ele critica assim a noção de signo que se opõe à noção de sujeito. Pois o ritmo não é mais som, não é mais forma, mas um sujeito, uma historicidade. E traduzindo o discurso e não a língua, traduzimos um sujeito inscrito no seu discurso e transformado por ele, ou seja, uma historicidade. O reconhecimento do ritmo como organização do sentido pelo sujeito implica uma crítica ao signo linguístico. Pois o ritmo, sendo uma organização contínua na linguagem, evidencia a estrutura descontínua do signo.

Signo 

É uma noção da antropologia dual e se opõe à antropologia do sujeito e do ritmo, que é histórica (MESCHONNIC, 1982, p.  65). É a partir do signo que uma série de dualismos se produziram. Em linguística, a dualidade significado/significante é o modelo de outras dualidades; em antropologia, a oposição corpo/alma, natureza/cultura; em filosofia, palavras/coisas, origem/convenção; em ciências sociais, indivíduo/sociedade; em política, maioridade/minoridade. Contra essa descontinuidade, Meschonnic opõe um pensamento do contínuo que implica o múltiplo e o plural. O pensamento sobre a linguagem conheceu no século XX a passagem da língua ao discurso. Esta noção tem efeitos diretos no traduzir. “O discurso supõe um sujeito, inscrito prosódica e ritmicamente na linguagem, sua oralidade, sua física” (MESCHONNIC, 1999, p. 16).


Referências bibliográficas:

BENVENISTE, Émile. Problèmes de linguistique générale. Paris: Gallimard, 1994 [1974]. 2 tomos.

BORDAS, E. Le rythme de la prose. Semen: rythme de la prose, nº 16, 2003 [online]. 1º maio 2007. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2008. 

DESSONS, Gérard; MESCHONNIC, Henri. Traité du rythme: des vers et des proses. Paris: Dunod, 1998. 


FERREIRA, Alice Maria de Araújo. A linguagem, a subjetividade e a intersubjetividade. Temporis[ação]. v. 1, n. 8, Cidade de Goiás, UEG – Unidade Cora Coralina, 2006. p. 105-120. 


MAINGUENEAU, Dominique; CHARADEAU, Patrick. Dicionário de análise de discurso. Trad. de Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2006. 


MESCHONNIC, Henri. Critique du rythme: anthropologie historique du langage. Lagrasse: Verdier, 1982. ______. Poétique du traduire. Paris: Verdier, 1999.

7 de fev. de 2015

Tradução Intralingual

Nesse trecho, Barthes repudia a comparação entre crítica e tradução porque se refere a esta como a transposição final e única de uma palavra ou expressão para outro sistema linguístico, o que revela uma concepção limitada da atividade tradutória. A tradução pode e, em muitos casos,deve ser perífrase e, portanto, implica em uma interpretação, uma leitura pessoal, como já explicava Jakobson em “Aspectos linguísticos da tradução”:

A tradução intralingual de uma palavra utiliza outra palavra, mais ou menos sinônima, ou recorre a um circunlóquio. (...) Da mesma forma, na tradução interlingual, não há comumente equivalência completa entre as unidades de código, ao passo que as mensagens podem servir como interpretações adequadas das unidades de código ou mensagens estrangeiras. (...) Mais frequentemente, entretanto, ao traduzir de uma língua para outra, substituem-se mensagens em uma das línguas, não por unidades de código separadas, mas por mensagens inteiras de outra língua. Tal tradução é uma forma de discurso indireto: o tradutor recodifica e transmite uma mensagem recebida de outra fonte. Assim, a tradução envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos diferentes. (1995, p. 65)

Portanto, apesar do discurso oposto, Barthes, em sua teoria e prática da crítica aproxima-se do conceito de tradução de Campos, pois esta, entendida como uma atividade criadora e crítica ao mesmo tempo, permite que os três conceitos – texto literário, crítica e tradução – se imbriquem.

Para Itamar Even-Zohar as traduções não podem ser vistas fora de um sistema cultural, como ele explica:
               
 My argument is that translated works do correlate in at least two ways: (a) in the way their source texts are selected by the target literature, the principles of selection never being uncorrelatable with the home co-systems of the target literature (to put it in the most cautious way); and (b) in the way they adopt specific norms,behaviors, and policies – in short, in their use of the literary repertoire – which results from their relations with the other home co-systems. 


In: Brandini, Laura Taddei. ROLAND BARTHES NO BRASIL, VIA TRADUÇÕES. Cad. Trad., Florianópolis, nº 34, p. 120-141, jul./dez. 2014. ISSN 2175-7968. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/36267/28208>. doi: http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2014v2n34p120. Acesso em: Fev. 2015.


© Helena Remina Richlin

21 de dez. de 2014

Tradução de equivalências linguísticas X marcadores culturais ...


[ ...] produzir um texto significa supor a sua recepção e, por consequência, a sua compreensão, ou seja, presumir que seja possível compartilhá-lo em comunidade [ ... ], mesmo que aspectos subjetivos estejam aí incluídos (particularidades de um dado estabelecimento escolar de um dos países ou singularidades idioletais de um tradutor, [por exemplo]).[ ... ]


Devido à diversidade das instituições de ensino, mesmo em sistemas mais centralizados,a principal função do tradutor não é encontrar um equivalente pleno, que muitas vezes não existe, mas encontrar técnicas para, por um lado, preservar o referente cultural e, ao mesmo tempo, torná-lo compreensível no texto traduzido(cf. Delvizio, 2011 p. 281). Consiste aí uma das dificuldades do trabalho do tradutor juramentado [neste caso específico, mas que não é diferente no trabalho do não-juramentado] (como, por exemplo, na tradução de abreviações, notas e menções, títulos de disciplinas, entidades institucionais, entre outros), que precisa evitar adaptações, pela própria natureza do texto que traduz,diversificando suas estratégias, entre transcrições, empréstimos, modulações,traduções intersemióticas, explicitações e até mesmo implicitações ou omissões(cf. modalidades tradutórias de Aubert, 1998). Por tal motivo, é frequente incluir explicitações ou paráfrases entre parêntesis ou em notas de rodapé precedidas de “N.d.T.” (Nota do Tradutor). [ ... ]
Num estudo sobre históricos escolares acadêmicos alemães e brasileiros, Reichmann (2013)constatou a grande diversidade na nomenclatura deste gênero textual no sistema alemão em oposição ao sistema brasileiro, que usa “histórico escolar” em todo o território nacional. Portanto, na Alemanha há termos concorrentes para denominar este documento escolar, como: Bescheinigung über erbrachte Studien-und Prüfungsleistungen, Notenspiegel, Leistungsübersicht,Leistungsbescheinigung, Leistungsnachweis, Transcript of Records, Datenabschrift,entre outros. Tal diversidade terminológica na Alemanha está estreitamente relacionada ao sistema escolar descentralizado em que cada estado ou instituição denomina o documento da maneira considerada mais conveniente, apesar de haver uma tendência à harmonização pela Reforma de Bolonha do uso de “Transcript of Records” e seus equivalentes em outros idiomas. [ ... ]
Desse modo, cabe ao tradutor juramentado fazer com que o estabelecimento escolar brasileiro que vai receber a tradução desse documento escolar compreenda-o, por um lado, quanto ao gênero e às terminologias e, por outro, a partir das equivalências instauradas pelo profissional das duas línguas, estabeleça um paralelo entre as marcas e os marcadores culturais dos dois países. Para tanto, o tradutor provavelmente incluirá notas de rodapé para explicitar as dissonâncias percebidas (no Brasil, por exemplo, as notas são atribuídas sobre 10 e na França, sobre 20) e se acomodará às singularidades dos discursos de cada gênero(os comentários dos professores franceses, por exemplo, vão do registro coloquial ao poético, passando por citações, provérbios e idiomatismos). [ ...]
Cabe,portanto, ao tradutor público ou juramentado [e a meu ver, também ao tradutor não juramentado] realizar pesquisas aprofundadas não somente sobre os gêneros,abreviações e terminologias em contraste, mas também sobre as especificidades de cada instituição emissora de determinado documento escolar no respectivo sistema de ensino [que no caso do tradutor não juramentado, se aplica a todo e qualquer texto literal, acadêmico, técnico, poético, dentre tantos outros que venha a transpor, linguisticamente, para qualquer que seja o idioma final desejado,em respeito à época e ao autor que o produziu, bem como ao contexto no qual foi produzido. [ ...]
A preocupação do tradutor em atualizar seus conhecimentos e aprimorar as técnicas de tradução é fundamental para que a sua tradução [juramentada ou não] possa exercer a função de veicular as marcas e os marcadores culturais de determinado sistema de ensino, [texto literário, histórico, acadêmico, técnico, poético,dentre tantos outros] de maneira compreensível para o receptor da tradução[seja ela juramentada ou não].

In: REICHMANN,Tinka & ZAVAGLIA, Adriana. A TRADUÇÃO JURAMENTADA DE DOCUMENTOSESCOLARES (PORTUGUÊS, FRANCÊS, ALEMÃO). Disponível em:http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/trad_em_revista.php?strSecao=input5&fas=259.Acesso em: nov. 2014. / http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/trad_em_revista.php?strSecao=input5&fas=259. Acesso em: dez. 2015.


© Helena Remina Richlin

11 de out. de 2014

A QUESTÃO DA FIDELIDADE -




Menard, o tradutor total, aspirava a uma fidelidade total: pretendia reescrever o Quixote exatamente como Miguel de Cervantes o escrevera, repetindo seu contexto histórico e social, suas circunstâncias, suas intenções e motivações.
A impossibilidade do sonho de Menard já nos permitiu reformular o conceito de texto "original". Resta-nos agora, repensar a questão da fidelidade.


Menard não pode ser completamente fiel ao texto de Cervantes, porque esse texto não é um receptáculo de conteúdos estáveis e mantidos sob controle, que podem ser repetidos na íntegra. O texto de Cervantes, como qualquer outro texto, "literário" ou não, somente poderá ser abordado através de uma leitura ou interpretação.


Como Pierre Menad, todo(a) leitor(a) ou tradutor(a) não poderá evitar que seu contato com os textos seja mediado por suas circunstâncias, suas concepções, seu contexto histórico e social. [...] Aquilo que consideramos verdadeiro será irremediavelmente determinado por todos os fatores que constituem nossa história pessoal, social e coletiva. Nesse sentido, é a história que dá à luz a verdade, e não a verdade que serve de modelo para a história. Assim, o Quixote de Menard, embora verbalmente idêntico ao de Cervantes, revela, mais do que o mundo de Cervantes, a própria história de Menard ...



In: ARROJO, Rosemary. OFICINA DE TRADUÇÃO: A Teoria na Prática. 4ª edição. São Paulo: Ática, 2000. p. 37/38.



O Sonho de uma linguagem não-arbitrária ...

Menard concebe o texto como um objeto de contornos perfeitamente determináveis, acreditando, que seja possível reproduzir totalmente, em outra língua, as ideias, o estilo e a naturalidade de um texto original.



Fonte: ARROJO, Rosemary. Oficina de Tradução: A teoria na prática. São Paulo: Ática, 2000.


© Helena Remina Richlin

Conceito de traduzibilidade ...

  ... O conceito de traduzibilidade, da forma como é posto por Benjamin, constitui um conceito atravessado pelo influxo melancólico: ele pressupõe a aceitação de uma distância, de uma separação de um fundo textual reconhecido como anterior, [o que] implica na destruição voluntária desse texto anterior e sua reconstituição, em outro tempo, em outra língua, em outra cultura, enfim em uma situação de alteridade ou outridade radical.
[ ...]
Não por acaso, pois, Benjamin irá ligar a traduzibilidade à questão de definir [ ... ] o que vem a ser esse processo e o produto desse processo denominado tradução. [ ... ] Defenderá a ideia de tradução como um transplante para um terreno "ironicamente" mais definitivo, a partir do qual o original não poderá mais continuar a migrar, sob pena de se transformar em outro: original de original, portanto um não original, uma falsificação.
[ ... ]
        Cada língua se comunica a si mesma; ou melhor, cada língua se comunica a si mesma, em si mesma. Em realidade, ela é o meio de comunicação.


Toury refere que a traduzibilidade é parte integrante do processo de tradução. A traduzibilidade pode ser condicionada perante o que se escolhe como invariante na entidade semiótica, e quando existe mudança ou não de canal durante a transmissão da mensagem, e será mais elevada mediante estas cinco condições:

·    1) A traduzibilidade é alta quando um par de linguagens é do mesmo tipo ou família linguística;
·    2) A traduzibilidade é alta quando existiu uma evolução cultural em linhas paralelas, mesmo quando não existiu contacto directo;
·    3) A traduzibilidade é alta quando existe contacto entre duas línguas, mesmo que não sejam do mesmo tipo;
·    4) A traduzibilidade é alta quando existe apenas um tipo de informação a ser traduzida, e diminui com a existência de outros tipos de informação e/ou com o grau de complexidade da informação dentro do texto;
·  5) A traduzibilidade é alta quando a diferenciação sistêmica intrínseca (dialectal, registo, estilística) produz valores semelhantes.

Os universais culturais recorrentes das condições de traduzibilidade são; a intromissão modelar, e a simplificação, explicitação ou maior grau de sofisticação decorrentes da posição relativa entre sistemas, ou seja, se o sistema for mais desenvolvido ao passar para outro sistema menos desenvolvido poderá ser compactado, ou até perder informação. Por outro lado, se a mensagem a transmitir partir de um sistema primitivo para um outro complexo, a mensagem tende a ser também mais complexa.

As normas fundamentais que governam a “equivalência” de entidades semióticas na tradução são; a Adequação
, quando a tradução estás mais próxima do texto de partida; e a Aceitabilidade quando está mais próxima do texto de chegada.






Bibliografia:

In: Cadernos de Tradução. Florianópolis: G. T. Tradução / UFSC, 1996.
LAGES, Susana Kampff. "A tarefa do tradutor" e o seu duplo: a Teoria da Linguagem de Walter Benjamin como Teoria da Traduzibilidade. Cadernos de Tradução, [S.l.], v. 1, n. 3, p. 63-88, jan. 1998. ISSN 2175-7968. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/5378/4924>. Acesso em: Out. 2014. doi:http://dx.doi.org/10.5007/5378.

LAL,Telma & GRILO, João. In: Blogue de apoio à disciplina Tradução para os Média da licenciatura em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Acesso em: nov. 2015.




© Helena Remina Richlin

Transportando a carga ...




De acordo com J. C. Catford, a tradução é a "substituição do material textual de uma língua pelo material textual equivalente em outra língua". [...] O que importa no transporte da carga não é quais vagões carregam quais cargas, nem a sequência em que os vagões estão dispostos, mas, sim que todos os volumes alcancem seu destino, o fundamental no processo de tradução é que todos os componentes significativos do original alcancem a língua alvo, de tal forma que possam ser usados pelos receptores. [...] Se compararmos o tradutor ao encarregado do transporte dessa carga, [..] sua função, [...] se restringe a garantir que a carga chegue intacta ao seu destino. Assim, o tradutor traduz, isto é, transporta a carga de significados, mas não deve interferir nela, não deve "interpretá-la".
Nesse sentido, os três princípios básicos que definem a boa tradução, sugeridos por Alexander Fraser Tytler, são:

1) a tradução deve reproduzir em sua totalidade a ideia do texto original;

2) o estilo da tradução deve ser o mesmo do original; e

3) a tradução deve ter toda a fluência e a naturalidade do texto original.





In: ARROJO, Rosemary. Oficina de Tradução: a teoria na prática. São Paulo, Editora Ática, 2000. Série Princípios.

© Helena Remina Richlin

A "Tarefa" de traduzir ...

  
 "A Tarefa de traduzir, segundo Walter Benjamin, é infinita: no sentido de que o abandono de si é infinito, no sentido de que nunca se atinge o Eu originário, o texto original, que sustentaria os demais eus e as demais traduções. Não existe uma tradução per-feita, ela permanece sempre uma estrutura da tradução, uma re-flexão, um essai."



Fonte: Cadernos de Tradução - UFSC: Florianópolis, G.T. Tradução, Nº 3, 1998.
LAGES, Susana Kampff. "A tarefa do tradutor" e o seu duplo: a Teoria da Linguagem de Walter Benjamin como Teoria da Traduzibilidade. Cadernos de Tradução, [S.l.], v. 1, n. 3, p. 63-88, jan. 1998. ISSN 2175-7968. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/5378/4924>. Acesso em: Out. 2014. doi:http://dx.doi.org/10.5007/5378.



Uma tradução ...
 "... uma tradução já não é mais o texto original ... e não chega ainda a ser um novo texto, pois ainda se vincula de alguma forma, ao texto a partir do qual foi criada ..."

(Santo Agostinho)





Cada texto é único!!!

"Cada texto é único e, simultaneamente, é a tradução de outro texto. Nenhum texto é inteiramente original porque a linguagem mesma, em sua essência, é uma tradução: primeiro, do mundo não-verbal e, depois, porque cada símbolo e cada frase, é a tradução de outro símbolo e de outra frase. Contudo, esse raciocínio pode inverter-se sem perder a validez: todos os textos são originais, porque cada tradução é diferente. Cada tradução é, até certo ponto, uma invenção, e assim constitui um texto único." (Otávio Paz - 1970)



In: CADERNOS DE TRADUÇÃO. Florianópolis: UFSC / G. T. Tradução, Nº 3, 1996

© Helena Remina Richlin

10 de out. de 2014

Tradução X Teoria





Muitos teóricos consideram a tradução como uma ciência sistematizável, que tenta fazer com que esta atividade tenha horizontes mais amplos do que sua simples concepção em fazer com que se compreenda um texto produzido em outra língua.

Traduzir consiste expressar em uma língua de chegada o que há em outra língua de partida ou língua original. Não obstante, de acordo com Walter Benjamin a tarefa do tradutor é estabelecer uma correspondência ideal entre o texto original e o traduzido, substituindo os vocábulos de uma língua de partida por vocábulos equivalentes da língua de chegada, a fim de obter uma equivalência comunicativa apropriada. Para que isto ocorra, este processo se desenvolve em duas fases: a da compreensão, em que o tradutor analisa os componentes vocabulares da língua original e seus diferentes níveis (pragmático, semântico e morfossintático); e a da reverbalização, em que o tradutor tenta reproduzir na língua de chegada as características de sentido e estilo da língua original.

Assim sendo, a questão da traduzibilidade se comporta como o fiel de uma balança, em que o passado do original apresenta múltiplas traduções possíveis, em que se pretende eliminar todo e qualquer viés interpretativo do tradutor que se debruça sobre ele, na tentativa de anular a distância entre o texto produzido no passado e a interpretação dada a ele no presente, fazendo com que o original e a tradução resultante coincidam entre si.

Segundo Henri Meschonnic, todo texto sempre possibilita um número ilimitado de leituras, logo, sempre poderá haver um número ilimitado de traduções. Cada tradução é uma releitura histórica que precisa ser produzida a partir da significância e atingir valores supra-históricos, supra-ideológicos, como o faz o original.

De acordo com as pesquisas de Mauri Furlan, durante toda a Idade Média continuam as discussões sobre a forma de traduzir dentro do posicionamento binário de tradução literal ou de sentido. Desde Gregório de Nisa (ca. 335 - a ca. 394), contemporâneo de Jerônimo, a linha de pensamento dominante entre os cristãos com respeito à concepção da linguagem é de que esta é uma livre tentativa da natureza humana sobre uma faculdade concedida por Deus ao homem.

E a exemplo de Jerônimo, o objetivo será quase sempre uma tradução pelo sentido, exceto quando se trata dos textos sagrados, onde a literalidade da tradução se expressa na ordem das palavras, na ordem sintática.

Para Walter Benjamin, a tradução é única, e é uma leitura possível da obra de arte, e ainda, na leitura-tradução sempre podem se revelar significados encobertos no original.

No final do séc. IV, Wulfila, bispo dos Godos instalados no curso do Danúbio, cria a Escrita Gótica, tendo em vista a tradução, na sua língua, dos textos sagrados. Esta escrita é igualmente chamada Moeso-gótica para se distinguir dos caracteres alemães, conhecidos por góticos. Estes foram inspirados no alfabeto grego.

O termo Gótico, utilizado correntemente para designar os caracteres alemães, não deve induzir ao erro. Com efeito, esta escrita não é de origem alemã. Enquanto os caracteres latinos reproduzem a minúscula do séc. XI, os primeiros impressores alemães escolheram para modelo a forma que a minúscula tinha ganho, em todo o país, no final da Idade Média. Desde o fim do séc. XII, os copistas começaram a quebrar as curvas harmoniosas das letras, chegando ao aspecto anguloso que caracterizam atualmente os caracteres alemães.

A grafia utilizada nestes documentos produzidos no passado é Escrita ou letra gótica (ou escolástica, ant.), nome dado ao tipo de letra angulosa e com linhas quebradas, originada entre os séculos XII e XIII, a partir do faturamento paulatino das formas manuscritas da escrita carolíngia. Esta letra foi usada na Europa Ocidental desde 1150 até 1500. Este estilo caligráfico e tipográfico continuou a ser utilizado em países de língua alemã até o século XX, porém torna-se uma fonte de difícil acesso, uma vez que sua grafia angulosa não é compreensível, por isso pouco lida pela nova geração, por se tratar de tipográfico em desuso na atualidade.


(MSc. Helena Remina Richlin, Tradutora)



Bibliografia pesquisada:

ALEMÁN, Dr. Manuel Maldonado. Fundamentos de La Traducción. Espanha: Universidade de Sevilla, 2004.

____________________________ . Traducción al Castellano de Textos Periodísticos Alemanes. Espanha: Universidade de Sevilla, 2004.

CADERNOS DE TRADUÇÃO / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Comunicação e Expressão G.T. Tradução. - Nº 3 (1998). Florianópolis: G.T. Tradução, 1996.

CERNUDA, Dr. Miguel. História de La Teoria de La Traducción. Espanha: Universidade de Sevilla, 2004.

FURLAN, Mauri. BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA TEORIA DA TRADUÇÃO NO OCIDENTE. II. A IDADE MÉDIA. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2003.

FURLAN, Mauri. Brevíssima história da teoria da tradução no Ocidente: II. A Idade Média.. Cadernos de Tradução, [S.l.], v. 2, n. 12, p. 9-28, jan. 2003. ISSN 2175-7968. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/6195/5754>. Acesso em: 24 Fev. 2015. doi:http://dx.doi.org/10.5007/6195.