10 de out. de 2014

Tradução X Teoria





Muitos teóricos consideram a tradução como uma ciência sistematizável, que tenta fazer com que esta atividade tenha horizontes mais amplos do que sua simples concepção em fazer com que se compreenda um texto produzido em outra língua.

Traduzir consiste expressar em uma língua de chegada o que há em outra língua de partida ou língua original. Não obstante, de acordo com Walter Benjamin a tarefa do tradutor é estabelecer uma correspondência ideal entre o texto original e o traduzido, substituindo os vocábulos de uma língua de partida por vocábulos equivalentes da língua de chegada, a fim de obter uma equivalência comunicativa apropriada. Para que isto ocorra, este processo se desenvolve em duas fases: a da compreensão, em que o tradutor analisa os componentes vocabulares da língua original e seus diferentes níveis (pragmático, semântico e morfossintático); e a da reverbalização, em que o tradutor tenta reproduzir na língua de chegada as características de sentido e estilo da língua original.

Assim sendo, a questão da traduzibilidade se comporta como o fiel de uma balança, em que o passado do original apresenta múltiplas traduções possíveis, em que se pretende eliminar todo e qualquer viés interpretativo do tradutor que se debruça sobre ele, na tentativa de anular a distância entre o texto produzido no passado e a interpretação dada a ele no presente, fazendo com que o original e a tradução resultante coincidam entre si.

Segundo Henri Meschonnic, todo texto sempre possibilita um número ilimitado de leituras, logo, sempre poderá haver um número ilimitado de traduções. Cada tradução é uma releitura histórica que precisa ser produzida a partir da significância e atingir valores supra-históricos, supra-ideológicos, como o faz o original.

De acordo com as pesquisas de Mauri Furlan, durante toda a Idade Média continuam as discussões sobre a forma de traduzir dentro do posicionamento binário de tradução literal ou de sentido. Desde Gregório de Nisa (ca. 335 - a ca. 394), contemporâneo de Jerônimo, a linha de pensamento dominante entre os cristãos com respeito à concepção da linguagem é de que esta é uma livre tentativa da natureza humana sobre uma faculdade concedida por Deus ao homem.

E a exemplo de Jerônimo, o objetivo será quase sempre uma tradução pelo sentido, exceto quando se trata dos textos sagrados, onde a literalidade da tradução se expressa na ordem das palavras, na ordem sintática.

Para Walter Benjamin, a tradução é única, e é uma leitura possível da obra de arte, e ainda, na leitura-tradução sempre podem se revelar significados encobertos no original.

No final do séc. IV, Wulfila, bispo dos Godos instalados no curso do Danúbio, cria a Escrita Gótica, tendo em vista a tradução, na sua língua, dos textos sagrados. Esta escrita é igualmente chamada Moeso-gótica para se distinguir dos caracteres alemães, conhecidos por góticos. Estes foram inspirados no alfabeto grego.

O termo Gótico, utilizado correntemente para designar os caracteres alemães, não deve induzir ao erro. Com efeito, esta escrita não é de origem alemã. Enquanto os caracteres latinos reproduzem a minúscula do séc. XI, os primeiros impressores alemães escolheram para modelo a forma que a minúscula tinha ganho, em todo o país, no final da Idade Média. Desde o fim do séc. XII, os copistas começaram a quebrar as curvas harmoniosas das letras, chegando ao aspecto anguloso que caracterizam atualmente os caracteres alemães.

A grafia utilizada nestes documentos produzidos no passado é Escrita ou letra gótica (ou escolástica, ant.), nome dado ao tipo de letra angulosa e com linhas quebradas, originada entre os séculos XII e XIII, a partir do faturamento paulatino das formas manuscritas da escrita carolíngia. Esta letra foi usada na Europa Ocidental desde 1150 até 1500. Este estilo caligráfico e tipográfico continuou a ser utilizado em países de língua alemã até o século XX, porém torna-se uma fonte de difícil acesso, uma vez que sua grafia angulosa não é compreensível, por isso pouco lida pela nova geração, por se tratar de tipográfico em desuso na atualidade.


(MSc. Helena Remina Richlin, Tradutora)



Bibliografia pesquisada:

ALEMÁN, Dr. Manuel Maldonado. Fundamentos de La Traducción. Espanha: Universidade de Sevilla, 2004.

____________________________ . Traducción al Castellano de Textos Periodísticos Alemanes. Espanha: Universidade de Sevilla, 2004.

CADERNOS DE TRADUÇÃO / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Comunicação e Expressão G.T. Tradução. - Nº 3 (1998). Florianópolis: G.T. Tradução, 1996.

CERNUDA, Dr. Miguel. História de La Teoria de La Traducción. Espanha: Universidade de Sevilla, 2004.

FURLAN, Mauri. BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA TEORIA DA TRADUÇÃO NO OCIDENTE. II. A IDADE MÉDIA. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2003.

FURLAN, Mauri. Brevíssima história da teoria da tradução no Ocidente: II. A Idade Média.. Cadernos de Tradução, [S.l.], v. 2, n. 12, p. 9-28, jan. 2003. ISSN 2175-7968. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/6195/5754>. Acesso em: 24 Fev. 2015. doi:http://dx.doi.org/10.5007/6195.

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